terça-feira, 17 de novembro de 2009

Anúncio Cigarro LIP II

Duzentos e setenta e sete dias. Forma-se uma criança. Ela nasce. Encontra um mundo de possibilidades. Tudo é estranho, árvores, rios, minérios, matérias-primas a serem trabalhadas. Seres vivos. Luz. Afeto. No primeiro momento, assusta-se. Depois reconhece o carinho. Ainda bebê começa a moldar-se. Ganha voz, depois a fala. Engatinha e então, de súbito, anda. Nos primeiros passos necessita de apoio. A confiança mistura-se com o medo. O crescimento é constante, interrompível. Surgem então as experiências, as paixões, as dúvidas. Com onze invernos frustra-se. Com doze verões reintegra-se. Com treze outonos conhece o vício do tabaco, por uma mera curiosidade. Aos trinta e dois não há mais primavera.

domingo, 8 de novembro de 2009

Sonho

Acordei apressado, nem reparei no meu terno amassado, vesti-o, corri para o trabalho como dito e ordenado, canso-me de sorriso na cara, e pálpebras pesadas, volto para casa, ligo a televisão, assisto a televisão, durmo de olhos abertos e enxergo que enxergam por mim.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

SEMPRE SERÁ - Conto Fantástico LIP II

Era noite, uma terça-feira chuvosa, o clima estava frio e com o calor e a luz proporcionados pela lareira acesa dentro de casa tudo indicava pra uma noite de bons sonhos. Esta era a casa de Lorenzo, que já há uma hora estava em seu quarto solitário em um repouso profundo. Foi durante essa noite que o fogo da lareira de Lorenzo começou a tomar forma, começou revoltar-se, saiu da lareira, libertou-se da grade que sempre o prendera e andava revolto pela casa. Esse fogo queimava tudo de mais valioso que podia alcançar, queimava o que Lorenzo prezava em seu lar, esse fogo com certeza conhecia o velho dono daquela casa. A chama foi subindo as escadas queimando todas as fotografias, quadros e recordações, enquanto que o procurado pelo fogo sentia enorme dor no lóbulo direito de seu cérebro, mas não podia acordar de seu repouso profundo que a essa hora se transformava em pesadelo irretornável. O agora sofredor Lorenzo se debatia mentalmente enquanto sentia que estava totalmente impotente, e esperava pagar pelo que sabia ser culpado. Agora passava pela memória de Lorenzo o quão corrupto foi enquanto político, foi um verme, alguém desprezível, sabia que merecia a punição e esse dia acabava de chegar. O dia amanheceu e o castigo continuava, era a raiva condensada de um povo esquecido. Médicos chegaram à casa de Lorenzo e constataram que o ex-político estava em estado de coma, foi levado ao hospital e conectado aos aparelhos. Lorenzo traíra toda sua família e, portanto, sua única companhia eram as máquinas e o enfermeiro que entrou apenas uma vez seu quarto. O desprezível permaneceu por uma semana ligado aos aparelhos, até que chegou ao hospital uma autorização por escrito de sua única filha. Esta folha de papel parecia ser o sonho de muitos, era a justiça, significava a liberdade e vitória de muitos presentes e fazia jus memória dos que já se foram, era a autorização para a prática da eutanásia. Porém essa era mesma eutanásia que Lorenzo havia implementado durante seu governo e agora, como sempre, se servia a ele. E assim se procedeu.